Nutrição ou Gastronomia –

Olá! Hoje é meu grande prazer convidar a Eliane Kina, uma nutricionista e chef de cozinha e o nosso papo hoje vai mostrar o quanto gastronomia e nutrição combinam.

Queria agradecer muito a sua vinda hoje é um prazer fazer este post com você e contar um pouquinho da sua história, que eu acho sensacional, uma história muito rica e com várias culturas, tanto brasileira, claro, mas também japonesa e um pouquinho de francês Sim! Então, Eliane, eu queria saber um pouquinho mais da sua trajetória, tanto profissional quanto pessoal, sobre a sua relação com a comida.

Eu vou começar quando eu tinha um ano de idade, mas vai ser rapidinho. Quando eu tinha um aninho de idade, a minha mãe fez uma festa de aniversário pra mim, nessa festa, tinham muitas comidas japonesas e as pessoas. Vou ter que falar minha idade também, quarenta anos atrás, era novidade, comida japonesa.

Até um dia eu levei um bolinho de arroz na escola e fez a maior confusão porque todo mundo queria ver minha lancheira que tinha um bolinho de arroz dentro, que não era comum quarenta anos atrás, né? Então quando eu fiz um aninho, minha mãe fez essa festa de aniversário, as pessoas queriam aprender a comida japonesa, porque vê uma comida colorida, uma comida bonita, e aí minha mãe começou a ensinar na cozinha da minha casa.

E aí a cozinha foi ficando pequena, porque muita gente começou a querer aprender e aí minha mãe montou uma escola de culinária. Então desde pequenininha eu ajudo minha mãe, fico junto com ela, enquanto ela dava aula, eu ia tirando a raiz do broto de feijão, sempre ajudando, contribuindo e fazendo a cozinha junto com minha mãe, então esse foi seu primeiro contato.

Nutrição ou Gastromania?

Depois quando surgiu a vontade de estudar? Você começou com a nutrição ou com a gastronomia?

– Então, quando eu fui escolher a faculdade, eu gostava muito de cozinhar, só que naquela época, não era muito comum a faculdade de gastronomia e a faculdade mais próxima, foi a faculdade de nutrição.
Então a minha mãe disse assim: “Faz a faculdade de nutrição“, me deu uma sugestão, “porque a gente já tem uma escola de culinária e aí a gente pode trabalhar juntas”. Então eu escolhi a nutrição, para estar entrando na gastronomia mesmo

Como foi estudar nutrição? Você se sentiu tranquila, feliz? Ou era, para você, uma profissão que preparava bem para, justamente, a gastronomia? Ou não tanto?

– Então, no começo da nutrição eu quase desisti. – Por quê? Eu gostava muito de cozinhar e na faculdade eu via que não tinha essa disciplina. No momento que eu queria entrar na alimentação, era muita coisa sobre restrição alimentar, do que não pode e  do que pode.

– Muitas vezes eu fiquei com vontade de desistir da faculdade, mas uma vez, eu fiz um estágio no Gran Meliá Hotel e aí eu abria as cozinhas, porque lá tinham doze cozinhas internacionais e quando eu abria cada cozinha, meu coração começava a bater forte. Aí eu falava assim: “Eu tenho uma chance de trabalhar junto com a gastronomia”.

– Eu comecei a gostar dessa parte, a tentar levar a profissão um pouco desse lado, da parte da gastronomia junto também, que é o lado do prazer de comer, justamente, a gente sempre fala da nutrição, ela foca no nutriente, na proteína, na caloria, na gordura e a parte do prazer de comer, a parte do sentimento ela não faz, agora espero que vai fazer cada vez mais parte, mas na época que você se formou, que eu me formei, não fazia parte do currículo –

É – Falar dessa parte mais psicológica do comer, então, para você estava faltando, né? E aí você foi estudar gastronomia?

Aí quando eu me formei, eu senti a necessidade de estudar gastronomia e aí eu comecei a trabalhar em algumas empresas de alimento. Chegou um momento que eu falei assim: “eu quero algo a mais”, porque eu comecei a fazer a pós de docência em gastronomia e eu falava assim: “eu não quero ser uma professora que só sabe a teoria, eu quero saber a prática também”. Foi ai que eu arrumei um estágio na França para eu ser cozinheira lá, eu queria cozinhar!

Aí eu cozinhava e quando cheguei naquela cozinha, parecia que eu me encontrei, era um peixe fora d’água, quando entrei na cozinha, era um peixe dentro d’água.

– Mesmo em francês? – Mesmo em francês! Eles não sabiam falar nada em português, tanto que quando eu cheguei lá, que eu falei que eu cheguei do Brasil para cozinhar, eles assustaram porque viram uma japonesa e queriam uma brasileira, porque eu falei que vinha do Brasil, né? E aí eu comecei a cozinhar, comecei a misturar a cultura também, teve até um dia que eu fiz um sushi com foie gras. Fiz um arrisquei e eles gostaram bastante e na minha casa sempre foi assim, muitas comidas diferentes.

Meu marido é italiano, então às vezes tem macarrão, às vezes tem sushi e é esse prazer de comer mesmo, sempre em volta da comida Que legal.

E sua experiência na França foi diferente? Uma cultura bem diferente, uma relação com o prazer de comer? Você achou que foi uma cultura que abriu novas portas para você? O que deixou você mais surpresa nessa abordagem francesa?

Quando eu comecei a conhecer a cultura da França, foi um momento da minha vida que mudou muito meu pensamento em relação a alimentação. Só que quando eu estava lá, eu não sabia que ia mudar tanto, vou te explicar porquê, quando eu estava lá, era muito a relação de sentimento, do comportamental com a alimentação, por exemplo, meu chefe me dava um peixe vivo e quando eu recebia o peixe, eu tinha que conhecer o peixe por inteiro.

Então ele sempre falava: “Coloca a mão no peixe, sente o peixe, onde termina a carne, onde começa a pele, onde termina a barrigada do peixe, pra eu cortar o peixe e aqui no Brasil eu não tinha isso. Era assim, sentir o aroma das ervas, sentir o aroma do alho, viver a cozinha de uma forma intensa, eram todos os cinco sentidos: o aroma, o sabor, o visual, a sensação do cheiro.

Em todo o tempo que eu estava na cozinha, eu estava vivendo aquilo com tanta intensidade, que eu não tinha e não conhecia aqui no Brasil. Por exemplo, teve uma vez que o meu chefe falou assim: “Eliane, você está sentindo o aroma da trufa no vinho?” E eu falei assim: “Não!” Ele falou: “Você sabe o que é trufa?” e eu disse que não sabia o que era, ele foi na cozinha, pegou uma trufa, cortou e me fez sentir o aroma, aí eu fui tomar o vinho, mesmo assim eu não estava sentindo o aroma da trufa.

No dia seguinte, ele me levou para Périgord, na capital mundial da trufa, quando eu cheguei lá, senti um aroma muito forte de trufa, eu fiquei emocionada com aquele cheiro e ele disse assim para mim: “Nunca mais esqueça esse cheiro do seu coração” Então, a relação da comida, do amor, é diferente do que no Brasil – Você acha? – Acho.

Eu costumo dizer que o ser humano, ele se nutre de alimentos e sentimentos, mas eu acho que o Brasil vive muito esse prazer de comer. Eu morei nos Estados Unidos e acho que aqui é mais forte do que lá. Você está dizendo que na França é ainda mais? É, foi mais intenso para mim.

Viver naquela cozinha com aquela cultura é uma coisa que eu gostei muito, era a parte da entrada, do prato principal e da sobremesa.

Do comer colorido, das texturas, quando a gente tem mais texturas e mais cores, mais ingredientes diferentes a gente tem no nosso prato, é muito mais rica, é a nossa comida também. Sempre sentado, na mesa, tem um ritual “o ritual de comer” de celebrar a comida.

Uma vez eu participei de um almoço embaixo de uma macieira e aquela macieira tinha uma mesa gigantesca com muitas pessoas juntas. E as pessoas conversando, rindo, brincando, olhando no olho, era uma família linda, tinha o prato passava uma panela até o final da mesa.

Quando eu fiz o curso de nutricoaching, o Mindful Eating, eu falei assim, “é isso que eu estava vivendo lá, e eu não sabia que tinha esse nome”. Me lembro desse dia que você me falou: “Nossa, tudo que eu vivenciei na França era Mindful Eating!” E eu não sabia que era esse nome, do comer consciente, de estar lá naquele momento, aliás, a gastronomia francesa foi tombada como um patrimônio da humanidade.

Não são só as receitas o que foi tombado é justamente sentar juntos e comer juntos a mesma comida, sem se questionar se é lactose, glúten, se posso comer ou não, é bem interessante.

E aí você voltou para o Brasil e começou a trabalhar como chef? Ou como nutricionista? Ou os dois?

Quando eu votei para o Brasil comecei a trabalhar em um restaurante e aí quando eu estava aqui, eu depois, fui de novo trabalhar na Inglaterra. Depois eu voltei pra cá de novo e aí, quando eu estava aqui de novo, meu chefe me convidou de novo para eu voltar para a França. Daí eu fui de novo trabalhar na cozinha foi quando eu vim em definitivo e comecei a trabalhar de chef e nutricionista juntos.

Até que eu comecei a perceber que eu tinha algo a mais, falei assim: “Vou pesquisar mais sobre o assunto” fiz um curso de coaching, de master coaching, me formei e depois eu procurei na internet “nutricoaching“.

O que ele é? Nutrição com a gastronomia?

– E aí você me encontrou?  – E aí eu te encontrei! E na verdade eu nem sabia muito da sua história. Eu já tinha visto seu livro e quando eu fui pro curso, eu pensei que estava indo naqueles congressos de nutricionistas que me deixavam muito triste no passado, porque tanta restrição, tanto sem glúten, sem lactose, comer com fibra e isso e aquilo?

Quando eu cheguei lá, que você começou a falar que não era para fazer dieta, que podia comer manteiga, que podia fazer tudo, eu fiquei tão feliz! É, me lembro, eu fiquei feliz também, de ver o quanto você estava feliz por estar lá.

Então, foi uma como se esse curso ajudou você a juntar tudo e ver que gastronomia e nutrição combinam.

Não é um outro, porque infelizmente é isso que a gente escuta: ou você come com prazer ou você come com saúde. Mas você não pode ter os dois eu não concordo! Eu acho o contrário, que a comida ela faz totalmente parte da saúde e do bem-estar, quando eu descobri isso, eu não fiquei mais com vergonha de ser nutricionista quando eu estava sendo chef.

E quando eu era chef de cozinha, não podia ser nutricionista, eu tinha essa crise também, por isso eu tinha vergonha quando estava cozinhando, de falar que eu era nutricionista, porque todo mundo fala assim: “Ué, mas você pode fazer bolo de chocolate?” “Você pode pôr manteiga, vinho?” “Você pode colocar tudo isso na sua comida?” E aí quando eu falei: “Nossa, agora eu posso” Daí eu fiquei em paz, porque eu achava que só ficava em paz lá na França.

Mas quando eu te conheci, eu vi que podia ter paz aqui no Brasil também. Muito obrigada, Eliane Espero que todo mundo tenha aproveitado algumas dicas da Eliane, que vai também me ajudar muito na parte da gastronomia – Vamos cozinhar juntas! – Vamos elaborar juntas projetos e ajudar nosso público a cozinhar mais com mais prazer, mais gastronomia e sem culpa – Não é? – Sim!